Baixa libido: o que a ciência e a clínica revelam sobre o desejo

Baixa libido é uma das queixas mais frequentes que recebo em meu consultório. Entender as causas por trás dessa redução do desejo é o primeiro passo para resgatar a sua saúde sexual. 

Muitas mulheres se sentem sozinhas nesse processo, mas a ciência mostra que essa é uma realidade comum. Por isso, não se sinta só!

O desejo sexual feminino é complexo e influenciado por fatores biológicos, psicológicos e sociais que se entrelaçam. Não se trata apenas de vontade, mas de um equilíbrio  entre o corpo, a mente e o contexto. 

A ciência tem avançado muito na compreensão da sexualidade, trazendo questões que antes eram tratadas como tabus ou muito lineares. Ao longo deste conteúdo, trarei dados de estudos e minha experiência clínica para ajudar você. 

Vamos descobrir juntas como transformar sua relação com o prazer e com o seu próprio corpo?

O que a ciência diz sobre a falta de interesse sexual?

Um estudo publicado em 2022 trouxe revelações importantes sobre a saúde sexual de mulheres jovens. 

Embora a pesquisa tenha focado na população norueguesa, e que diante disso, precisamos certamente considerar aspectos culturais, observo em minha prática clínica que muitos desses dados se aplicam às mulheres que atendo.

Alguns dos resultados do estudo foi: mais de uma em cada três jovens norueguesas relatou falta de interesse em sexo, também que mulheres com parceiros fixos relataram essa falta de interesse com mais frequência do que as solteiras. 

Além disso, fatores como o excesso de peso, a insatisfação com o nível de atividade sexual e a preocupação com a aparência física afetaram diretamente o desejo.

Esses dados reforçam a importância da satisfação com a aparência e dos fatores relacionais. Na minha vivência como terapeuta sexual, percebo que a pressão estética e a dinâmica do relacionamento são, muitas vezes, grandes “ladrões” da libido.

Quando a mulher não se sente bem em sua própria pele, o sexo deixa de ser um momento de conexão para se tornar um momento de autocrítica. É claro que aí temos uma problemática muito acentuada no que diz respeito ao que achamos sobre o nosso próprio corpo, porque o que pensamos sobre ele não vem só do que “nós mesmas pensamos sobre ele”, mas sim de toda uma cultura que venera a magreza e corpos “perfeitamente” alinhados e tudo isso influencia a forma como enxergamos aquilo que é belo. 

Desde já quero te dizer: todo e qualquer corpo é capaz de sentir prazer, independente de como ele seja.

E aí você me conta, que mulher consegue ter desejo ou prazer sendo vigilante do seu corpo o tempo todo? Nenhuma, certamente.

Ser jovem na sociedade atual: pressão, objetificação e relacionamentos

Essa categoria revela como o contexto sociocultural molda o desejo. Pesquisas anteriores já associavam uma imagem corporal negativa à redução do desejo sexual em mulheres jovens. 

Mas isso não é só uma questão antiga. Dá uma olhada neste dado abaixo!

Uma pesquisa recente feita no contexto da Pandemia da COVID-19, apontou diferenças importantes entre mulheres e homens em relação à autoimagem corporal.

De forma geral, as mulheres relataram ter mais dificuldades em relação ao próprio corpo e à vivência da sexualidade quando comparadas aos homens. 

Claro que isso não é uma super novidade, mas o que quero chamar a atenção é o quanto isso impacta na nossa vivência na hora do sexo, seja no seu desejo, na excitação, no prazer ou no orgasmo.

Elas apresentaram maior insatisfação com a aparência, mais desconforto em olhar, tocar ou expor o corpo, além de uma sensação mais intensa de distanciamento do próprio corpo (Cedro et al., 2022). Não é muito difícil de pensar… você se lembra como se sentia em relação ao seu corpo na pandemia?

O estudo fala que essas experiências também se refletiram na atividade sexual em si: com menor facilidade para sentir excitação e níveis mais elevados de ansiedade relacionados ao sexo. 

Essas descobertas revelam que a sexualidade feminina é muito mais atravessada por pressões sociais, estéticas e emocionais, fazendo com que o corpo seja vivido como fonte de cobrança e vigilância, e não de prazer.

Isso nos mostra desigualdades de gênero persistentes e reforça a necessidade de abordagens clínicas, educativas e culturais que cuidem da relação das mulheres com o próprio corpo como parte importante da saúde sexual.

Como a relação com o próprio corpo afeta a libido

Isto tudo, também está ligado à objetificação da mulher: o monitoramento constante do próprio corpo pode levar ao aumento da vergonha corporal, desencadeando emoções negativas que contribuem para problemas sexuais (Santoniccolo et al., 2023). 

Em consulta com sexóloga, frequentemente trabalhamos essa desconstrução, o corpo que faz sexo não é um objeto de exposição, mas um meio de sensações e prazer. 

Reflita comigo: quando somos objetificadas, o quanto será que somos autorizadas a sentir prazer? O quanto será que nos sentimos merecedoras do prazer e entender que ele é nosso?

Além da vergonha, muitas mulheres enfrentam uma forte ansiedade pelo desempenho

A insegurança em relação à própria competência sexual e a pressão para performar bem criam um bloqueio e faz com que a mulher acabe não conseguindo se conectar com o prazer, isso acaba com tudo o que poderia ser potencialmente erótico para ela. 

Sabe quando você transa pensando “será que estou fazendo direito?” “será que estou sendo sexy?” “como será que está o meu corpo nessa posição?”

O impacto dos relacionamentos no desejo sexual feminino 

Fatores relacionais também são importantes para o interesse e o desejo sexual feminino. A intimidade e a proximidade emocional são fatores centrais, e a redução do interesse e do desejo pode ocorrer quando as mulheres não se sentem desejadas e aceitas por suas parcerias.

Além disso, vejo muito em minha clínica que as diferenças no desejo sexual entre parceiros em um relacionamento, podem causar preocupações e emoções negativas, o que pode afetar negativamente a satisfação sexual

Quando um parceiro tem o desejo maior ou menor que o outro, isso pode gerar frustração, ressentimento e até mesmo culpa. A pessoa com menor desejo pode se sentir pressionada, enquanto a com maior desejo pode se sentir rejeitada.

Essa dinâmica, se não for bem comunicada e gerenciada, cria um ciclo vicioso que afeta a intimidade e a conexão emocional, impactando ainda mais a libido de ambos, mas especialmente da mulher, que muitas vezes internaliza a responsabilidade pela falta de sexo e pode se sentir obrigada a ter atividade sexual com seu parceiro por medo de magoar. 

Sei que, muito provavelmente, você já pode ter passado por isso em algum momento, porque é uma das queixas que eu mais ouço em consulta.

Por isso, os aspectos emocionais e psicológicos dos relacionamentos femininos são importantes para o desejo sexual das mulheres. Você se identifica com esses estudos? Fale comigo, eu posso te ajudar.

Trauma sexual e a influência no sexo

É importante abordar um aspecto sensível, mas infelizmente comum, que impacta profundamente a sexualidade feminina: o trauma sexual. 

Experiências traumáticas podem fragmentar a relação da mulher com seu próprio corpo e com o prazer, isso leva a uma dissociação entre corpo e prazer. 

O corpo, que deveria ser fonte de sensações agradáveis, pode se tornar um local de memória de dor, medo ou invasão. Essa dissociação faz com que a mulher se desconecte de suas próprias sensações, tornando difícil a entrega e a excitação. 

O desejo, que é uma resposta complexa que envolve segurança e vulnerabilidade, é naturalmente inibido quando há um histórico de violação dos próprios direitos sexuais.

Em casos de trauma, a sexualidade pode ser percebida como perigosa, e o ato sexual pode desencadear gatilhos emocionais e físicos. 

A terapia sexual feminina desempenha um papel importante aqui, oferecendo um ambiente seguro e acolhedor para que a mulher possa processar essas experiências e construir uma sexualidade mais saudável e afetiva.

O trabalho terapêutico visa reconstruir a relação com o corpo, ajudar essa mulher a se conectar com o prazer e desenvolver estratégias para que a intimidade seja vivida de forma autônoma, confortável, consentida e prazerosa, no tempo e ritmo da paciente. 

É um processo que exige paciência, empatia e habilidades terapêuticas para ajudar a mulher a recuperar sua autonomia sexual.

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Relacionamento: da monotonia ao sexo por obrigação

Existe uma relação entre a duração do relacionamento e a redução do desejo sexual feminino.

Com o tempo, os relacionamentos também passam de uma fase de novidade, onde tudo é novo, para uma fase com maior conhecimento sobre a parceria, onde o conhecido e a rotina podem tomar conta. Nestes casos de relacionamentos longos, já não se tem tanto a novidade e a surpresa.

Isso é completamente esperado. Ainda assim, muitos casais associam o sexo apenas à novidade e acreditam que, se a vida sexual não vai bem, é porque “fazem sempre as mesmas coisas”. Mas, essa relação não é necessariamente verdadeira.

A satisfação sexual vai muito além de novidades.

Como vimos, quando a mulher não se sente desejada ou aceita pelo parceiro o interesse sexual diminui. Dinâmicas conjugais problemáticas, quebra de confiança, e a necessidade não atendida de carinho e apoio emocional são gatilhos claros para a baixa libido.

O perigo do sexo por obrigação

Um ponto de atenção abordado no estudo norueguês e muito presente na minha clínica é o sexo por obrigação. Muitas mulheres sentem que a atividade sexual é esperada ou sentem-se pressionadas para não magoar a parceria. 

De modo geral, existe a expectativa de que as mulheres coloquem as necessidades do parceiro acima das próprias. 

O fato de muitas mulheres se envolverem repetidamente em “sexo por obrigação” pode ter um efeito prejudicial ou um efeito contrário, tanto no relacionamento quanto no desejo sexual individual.

Eu sei que muitas mulheres que me leem por aqui vão se identificar, mas quero que saibam que se expor constantemente a esse contexto de “fazer para agradar” é muito ruim. Você pode até pensar que isso está ajudando, mas não está. 

Por isso, é preciso pensar em formas e estratégias para que essa dinâmica entre vocês se modifique. Se você se identifica, saiba que na terapia sexual online vamos cuidar disso juntas.

Saúde Física e Mental: Dor, Medicamentos e Condições Crônicas

Não podemos ignorar os aspectos fisiológicos, pois a dor durante o sexo foi um problema relatado por várias participantes do estudo Norueguês. Estima-se que aproximadamente uma em cada três mulheres entre 16 e 29 anos experimenta dor durante o sexo. 

Gente, isso não é pouca coisa não! Imagina que você tem um grupo de 3 amigas e pensa que uma de vocês experimenta dor na relação. É basicamente isso que essa estatística diz.

A dor pode ser tanto a causa quanto a consequência da baixa libido. Afinal, é difícil sentir desejo quando a experiência sexual está associada à dor.

Outros fatores importantes:

  • Antidepressivos: o uso de antidepressivos, particularmente os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRSs) e Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSNs), é uma causa comum de disfunção sexual, incluindo a redução da libido e diminuição da excitação. 
  • Transtornos mentais: além da medicação, a própria condição de transtornos como ansiedade e depressão influenciam no prazer. O cansaço e a falta de energia são sintomas que com certeza impactam o desejo sexual.
  • Outras condições de saúde: condições crônicas como diabetes, doenças da tireoide, cardiovasculares, endometriose, síndrome dos ovários policísticos e a menopausa (não é uma condição de saúde, mas é uma fase natural do ciclo de vida, que irá influenciar nas condições de saúde), podem afetar diretamente a libido através de desequilíbrios hormonais, dor crônica, cansaço ou alterações na imagem corporal.

Embora muitas pacientes não considerem esses fatores isoladamente como a causa, eles compõem o cenário que dificulta a resposta sexual. Por isso, a terapia sexual feminina adota uma visão integral, olhando para o corpo e para a mente simultaneamente.

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Quando a baixa libido é realmente um problema?

É fundamental diferenciar uma fase da vida de um sofrimento “real”. Aqui, de forma alguma estou deslegitimando o sofrimento, pois todo sofrimento é válido, independentemente do contexto.

O que quero dizer, é que o desejo sexual não é linear: ele oscila de acordo com o ciclo menstrual, o estresse no trabalho, a chegada de filhos, mudanças hormonais e até mesmo o cansaço do dia a dia.

O que geralmente acontece é que muitas mulheres acabam “classificando” esse sofrimento como se fosse um problema “à parte”, descontextualizado da própria vida.

A falta de libido apenas é um problema quando traz sofrimento para a pessoa. Se você não sente desejo sexual e está em paz com isso, se não há angústia, culpa ou impacto negativo na sua vida ou relacionamento, então não há disfunção a ser tratada. 

Tudo bem se você não sente libido e não sofre com isso. No entanto, se essa ausência gera angústia, afeta sua autoestima, causa conflitos no relacionamento ou prejudica seu bem-estar geral, é o momento de buscar ajuda.

Eu sei também que este sofrimento pode não vir naturalmente de você, mas sim, porque a nossa sociedade supervaloriza o sexo e coloca ele como um elemento central de um “bom relacionamento”, afinal, se espera socialmente que os casais transem. Consegue compreender isso?

No final das contas, a importância de olhar para o impacto na qualidade de vida é o que define a necessidade de uma consulta terapia sexual. 

O objetivo não é atingir um ideal de frequência sexual ou de desejo, mas sim de promover o bem-estar, a conexão com o próprio prazer e a satisfação com a sua vida sexual, seja ela qual for.

Como melhorar a libido: caminhos para a reconexão

Se você se identificou com os pontos acima, saiba que existem caminhos para cuidar dessa queixa. A melhora do desejo passa por quatro pilares fundamentais:

1. Reconexão com o corpo

O autoconhecimento corporal é a base. É preciso aprender a ouvir os sinais de prazer e excitação do próprio corpo, sem a pressão do ato sexual em si. 

Isso pode envolver a exploração individual, a masturbação consciente e a atenção plena às sensações. O toque, a exploração de fantasias e o uso de estímulos eróticos ajudam a promover a resposta sexual, mapeando o que realmente te dá prazer.

2. Redução de culpa com a aquisição de conhecimento

A baixa libido muitas vezes é alimentada por mitos, expectativas irreais e comparações com o passado ou com a sexualidade de outras pessoas, que aliás, pensamos que está todo mundo por aí transando, mas a verdade não é bem essa. 

Entender que sua sexualidade hoje é diferente de quando você tinha 20 anos é libertador. A desconstrução de mitos sobre o que é normal ou ideal no sexo é crucial. A terapia sexual feminina te ajuda justamente nesse sentido: adquirir conhecimento para se libertar de ideias e conceitos que impedem a sua satisfação sexual.

O foco deve ser na sexualidade possível, e não em uma versão idealizada pela mídia ou pela sociedade. 

O conhecimento sobre o funcionamento do corpo feminino, sobre as fases do desejo e sobre as diversas formas de prazer empodera a mulher a abandonar a comparação e a culpa.

3. Comunicação no relacionamento

Aqui está uma das chaves para o sucesso! Falar com sua parceria sobre desejos, limites e expectativas é essencial. 

Muitos casais evitam o assunto, o que gera mal-entendidos e frustrações. Criar um ambiente de segurança emocional onde o “não” é respeitado permite que o “sim” seja autêntico e desejado. 

A sexualidade deve ser vista como uma construção conjunta do casal, onde ambos são responsáveis por expressar suas necessidades e ouvir as do outro, buscando soluções criativas e prazerosas para ambos.

4. Cuidado integral

Manejar o estresse, cuidar da qualidade do sono e do descanso é fundamental. Muitas vezes, o que falta não é libido, é energia e bem-estar geral. 

Uma alimentação equilibrada e a prática regular de exercícios físicos também contribuem para a saúde hormonal e o bem-estar mental. 

O acompanhamento profissional, como agendar terapia sexual, oferece as ferramentas e direcionamentos para minimizar essas dificuldades, abordando a saúde física e mental de forma integrada.

Trabalhando com uma profissional especializada

Quando a baixa libido persiste e causa sofrimento, buscar ajuda especializada é um passo fundamental. Uma consulta comigo não é sobre “ter mais sexo”, mas sobre reconectar-se com o seu prazer, com o seu corpo e com a própria identidade sexual.

A terapia sexual difere da psicoterapia tradicional por seu foco específico nas questões sexuais. Ela se concentra em padrões de pensamento, comportamentos e dinâmicas relacionais que afetam a vida sexual.

A terapia sexual feminina é um espaço seguro para explorar medos, inseguranças, dificulades e expectativas, permitindo que a mulher construa uma sexualidade autêntica e satisfatória para si mesma.

Se você sente que o seu desejo sexual está bloqueado e isso tem causado angústia, saiba que existe um espaço seguro para tratar essas questões. A sexualidade é uma parte importante da nossa saúde e merece ser cuidada com respeito, ética, ciência e profissionalismo.

Eu sou a Dra. Mariana Beraldi, terapeuta sexual e de casal, e estou aqui para ajudar você a reencontrar o seu caminho para uma vida sexual mais plena e autêntica. 

Lembre-se que a mudança é possível e que você não precisa passar por isso sozinha. Permita-se buscar o apoio necessário. Vamos conversar, eu posso te ajudar!

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Ilustração representando a baixa libido

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